Com o apoio de instituições empresariais no Estado, micro e pequenas empresas catarinenses se estruturam para ganhar o mercado internacional. Crise financeira pode ajudar no avanço das exportações dos pequenos negócios de SC.

Comece atuando no mercado local, mas com estratégia global. Este é um conselho clássico para um novo negócio que abre nos Estados Unidos, Cingapura, Israel ou em outro país desenvolvido exportador. A marca de moda praia Sabrina Fattori, de Itajaí, supera a orientação dessa cartilha e quer avançar também no Brasil, em especial em Santa Catarina. Além de vender 95% da produção no exterior, deu preferência pela contratação de trabalhadores estrangeiros, especialmente do Haiti. Do quadro de 20 colaboradores, 65% são do país da América Central.

O avanço no exterior começou gradualmente, com a ajuda de uma trade de Balneário Camboriú, a TekTrade, que focou distribuidores lá fora e escolheu Israel como primeiro mercado. No primeiro ano, em 2015, a marca de moda praia exportou 600 peças. Em 2016 ampliou para 8 mil, depois 12 mil, 26 mil e fechou 2019 com a venda de 48 mil. Para 2022, a projeção é exportar 60 mil peças, informa o sócio e gestor comercial, Antonio Volnei Barbosa.

A internacionalização das pequenas e médias empresas garante, além de melhores receitas, mais condições de competitividade e mais estabilidade nos negócios. Por isso é uma das prioridades da gestão do industrial Mario Cezar de Aguiar na presidência da Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc).

A economista Maria Teresa Bustamante, presidente da Câmara de Comércio Exterior da Fiesc e uma das maiores especialistas do Brasil na área de comércio internacional, é uma das principais incentivadoras da cultura de internacionalização de empresas. Isso não significa só exportar, mas também importar e buscar a excelência para competir tanto no mercado interno, quanto externo.

– Para as pequenas e médias empresas, a cultura da internacionalização representa o reconhecimento da necessidade de criar, no ambiente interno, um princípio natural em que todas as variáveis que compõem a gestão administrativa, financeira, de pessoas, de processo, produto, qualidade e tecnologia, devem estar sempre alinhadas em relação ao atendimento aos mercados – explica Maria Teresa.

Segundo ela, a empresa que consegue alinhar todas essas variáveis dentro desse conceito de competitividade terá condições de crescer sempre, olhando o que está acontecendo em torno dela, a partir da concorrência no mercado interno, dos importadores que concorrem com ela no mercado interno. Aí, vai enxergar as possibilidades de atuar também em outros países porque reúne as condições para atender as exigências dos mercados globais.

Crise pode ajudar no avanço das exportações
Com algumas variações, o segmento da micro e pequena empresa de Santa Catarina tem respondido por 2,5% a 3% do total da receita de exportações do Estado. É o que mostram os números da última década. Isso é pouco para uma economia pujante, que até abril deste ano respondeu por 4% das exportações e 9,5% das importações do país. No primeiro quadrimestre, SC exportou US$ 2,64 bilhões e importou US$ 5,29 bilhões. Nesses dados não estão incluídas receitas de exportação de software porque o setor é contabilizado como serviço.

Os números da balança comercial do Estado mostram também que nos momentos de crise, as pequenas empresas se articulam mais para vender no exterior, enquanto nos períodos de bonança se acomodam no mercado interno. Em 2014 o Brasil começou a sentir o peso da grande recessão chegando e, em 2015, SC contava com 1.145 micro e pequenas empresas exportadoras. Em 2016 o número subiu para 1.450 e 2017 eram 1.451.

Diferente dos bons tempos. Em 2010, quando o Produto Interno Bruto (PIB) do país cresceu mais de 7%, maior alta das últimas décadas, em SC apenas 923 micro e pequenas empresas exportaram. No ano seguinte, 2011, foram 919 e em 2012 o total chegou a 945. No caso da marca de moda praia, a exportação foi para resolver um problema de mercado. A empresa teve origem em loja multimarcas em Balneário Camboriú, fundada em 2004 por Maria Helena Barbosa e a filha Sabrina Fattori Barbosa.

Depois de um tempo, elas decidiram priorizar o consumidor classe A e B, com produção própria. Mas diante de tanta concorrência no Brasil, concluíram que precisavam atuar no exterior. Para esse passo mais difícil, Volnei Barbosa, marido de Maria Helena e pai da Sabrina, que até então trabalhava numa multinacional, entrou na gestão.

– Para chegar ao atendimento das classes A e B no exterior você precisa ter qualidade. Para isso, você precisa utilizar as melhores matérias-primas – enfatiza Barbosa.

Agora, segundo ele, o desafio é aumentar a presença no Brasil, onde a empresa atua com site e show room para a região de Itajaí. O plano é avançar de 5% para 15% das vendas no Brasil para enfrentar melhor as variações cambiais.

Entidades ensinam a atuar no mercado global
Médias, micro e pequenas empresas catarinenses consideram a relevância do comércio internacional, mas o número das que decidem crescer além fronteiras é menor do que o desejável em Santa Catarina. Por isso, programas desenvolvidos pelo Sebrae-SC e a Federação das Indústrias de Santa Catarina (Fiesc) visam esse objetivo. O mais recente é o Go To Market, um curso virtual de um ano que ensina a prática de internacionalização de empresas. Além das duas entidades, o programa conta, também, com apoio das federações e associações empresariais do Estado.

As inscrições seguem abertas porque, apesar das participações de empresários do Brasil e exterior, o número de alunos almejado pelos organizadores ainda está distante. A meta é a participação de 500 empresas, mas, por enquanto, menos de 100 se inscreveram. Podem participar somente pessoas jurídicas. As inscrições seguem abertas e custam R$ 1,2 mil, o equivalente a R$ 100 por mês para um curso de 12 meses.

À frente do curso está o gerente de Internacionalização do Sebrae-SC, Filipe Gallotti, um executivo com experiência em negócios virtuais. Ele informa que entre os inscritos estão empresários de São Paulo, Minas Gerais, Rio Grande do Sul, Manaus, Ceará, México e Canadá.

– Isso deixa claro a força do ensino a distância (EaD). Quando um empresário sairia de Manaus para fazer um curso no Sebrae, em Florianópolis? – destaca Gallotti.

As aulas são semanais e os professores são especialistas com experiência prática nas respectivas disciplinas que ministram. Conforme Maria Teresa Bustamante, presidente da Câmara de Comércio Exterior da Fiesc, a entidade tem dois grandes programas com foco na internacionalização de médias e pequenas empresas.

– O objetivo é incluir empresas de todos os setores, não só indústrias. Nesse radar estão empresas de software, serviços, comércio, turismo e outras, para a cultura da internacionalização ter abrangência muito maior – explica ela.

Fonte: www.nsctotal.com.br